Segundo a companhia, o plano já conta com a adesão de credores que representam mais de 47% desse valor, o que, de acordo com a empresa, demonstra apoio relevante à proposta de reestruturação das obrigações financeiras. Após anunciar a medida, a companhia afirmou que suas operações seguem normalmente. O pedido ocorre após um período de pressão sobre as contas da empresa, marcado pelo aumento do endividamento e por dificuldades operacionais. 🔎 A recuperação extrajudicial é um acordo no qual a empresa renegocia parte das dívidas diretamente com alguns credores, fora da Justiça. O objetivo é obter mais prazo ou melhores condições de pagamento para reorganizar as finanças e evitar problemas mais graves, como o risco de falência. Nos últimos anos, a Raízen ampliou investimentos em projetos ligados à transição energética, mas parte dessas iniciativas apresentou retorno mais lento do que o esperado. Origem e atuação da companhia A Raízen foi criada em 2011 como uma joint venture entre o grupo Cosan e a Shell, combinando as operações de produção de açúcar e etanol da Cosan com a rede de distribuição de combustíveis da Shell no Brasil. O acordo foi aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em 2012. Na época, a empresa foi avaliada em cerca de US$ 12 bilhões, com participação dividida igualmente entre as duas sócias. O nome Raízen surgiu da junção das palavras “raiz” e “energia”, em referência à origem da empresa no setor sucroenergético e à atuação no mercado de energia. Desde então, a companhia se consolidou como a maior produtora mundial de etanol de cana-de-açúcar e uma das principais empresas do setor sucroenergético no país. Hoje, a companhia atua de forma integrada no setor de energia, com negócios que vão da produção de açúcar e etanol à distribuição e comercialização de combustíveis. A empresa produz açúcar, etanol de primeira e segunda geração, bioeletricidade e biogás, além de ser responsável pela distribuição de combustíveis da marca Shell no Brasil, na Argentina e no Paraguai. Segundo dados divulgados pela própria companhia, a Raízen conta atualmente com mais de 46 mil funcionários e cerca de 1,3 milhão de hectares cultivados com cana-de-açúcar. Expansão e aposta em novos projetos A partir de 2016, a companhia intensificou os investimentos em projetos de longo prazo, em grande parte financiados com dívida. Entre as iniciativas estava a expansão da produção de etanol de segunda geração (E2G), tecnologia baseada no aproveitamento de resíduos da cana para a produção de biocombustível. A estratégia partia da expectativa de que combustíveis com menor impacto ambiental poderiam ganhar espaço no mercado, em meio ao avanço das políticas e discussões globais sobre transição energética. Além disso, a empresa ampliou investimentos em projetos ligados a novas fontes de energia, incluindo iniciativas de geração solar e produção de biogás. Ao mesmo tempo em que ampliava investimentos nesse tipo de tecnologia, o setor passou a registrar o crescimento do etanol de milho, que avançou com custos competitivos e estrutura produtiva mais simples. A expansão internacional também ganhou força a partir de 2018, quando a companhia adquiriu ativos de refino e distribuição da Shell na Argentina e passou a atuar também no Paraguai. Diversificação de negócios Nos últimos anos, a companhia também expandiu sua atuação para diferentes frentes de negócios. Além da produção de energia e biocombustíveis, a empresa atua na distribuição de combustíveis para postos da rede Shell, aeroportos e clientes corporativos, como empresas de transporte, agronegócio, mineração e indústria. A operação inclui 68 bases de abastecimento em aeroportos e mais de 70 terminais de distribuição de combustíveis, que permitem atender todas as regiões do país. A companhia também atua no abastecimento de companhias aéreas e da aviação executiva e oferece soluções para empresas, como sistemas de gestão e controle de abastecimento de frotas. No varejo, a empresa administra as lojas de conveniência Shell Select e Shell Café, instaladas em postos de combustíveis. A Raízen também mantém iniciativas voltadas à digitalização e à mobilidade, como o Shell Box, aplicativo que permite pagar abastecimentos pelo celular e participar de programas de fidelidade. Movimentos no nível da holding Cosan também influenciaram o cenário do grupo. Entre eles, um investimento bilionário em ações da mineradora Vale, que acabou perdendo valor em meio às oscilações do mercado de commodities. Deterioração dos resultados financeiros A deterioração do quadro financeiro aparece nos resultados mais recentes da companhia. No ano fiscal de 2021/2022, a Raízen registrou lucro líquido de R$ 3 bilhões, com dívida líquida de R$ 13,8 bilhões e alavancagem equivalente a 1,3 vez o Ebitda. Nos anos seguintes, esses indicadores se deterioraram. Até o terceiro trimestre do ano fiscal de 2025/2026, o prejuízo acumulado chegou a R$ 15,6 bilhões, influenciado por uma provisão não caixa de R$ 11 bilhões. No mesmo período, a dívida líquida alcançou R$ 55,322 bilhões e a alavancagem subiu para 5,3 vezes o Ebitda. Tentativa de reorganização Em teleconferência recente, executivos da empresa afirmaram que a estratégia atual envolve retomar o foco nas atividades consideradas centrais do negócio, como a produção de açúcar e etanol e a distribuição de combustíveis e lubrificantes. Nos últimos anos, a companhia também iniciou um processo de venda de ativos e de saída de operações consideradas menos alinhadas ao núcleo das atividades. As tentativas de reforçar o capital da empresa, no entanto, esbarraram em divergências entre os sócios. Diante do aumento das pressões financeiras e da cobrança de credores, a companhia passou a buscar uma solução mais ampla para reorganizar sua estrutura de capital — movimento que culminou no pedido de recuperação extrajudicial. *Reportagem em atualização Raízen tem mais de 140 vagas para a região de Piracicaba — Foto: Divulgação/Raízen
