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Entenda por que Bárbara Heliodora, heroína da Inconfidência Mineira, foi reconhecida em reparação histórica

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A poeta, que viveu em São Gonçalo do Sapucaí (MG) até sua morte, foi homenageada em ato de reparação histórica por não ter sido reconhecida à época do movimento histórico. Memorizada como parte da história de Minas Gerais, Bárbara Heliodora é nomeada como “Heroína da Inconfidência Mineira” pela convicção de que tenha sido a primeira mulher a desafiar o contexto em que vivia no século XVIII participando de um movimento político no Brasil. Mais de 200 anos após sua morte, o reconhecimento – que não foi possível à época por ser mulher – foi feito neste domingo (31) em ato de reparação histórica. (Entenda abaixo)
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Bárbara Heliodora foi homenageada neste domingo (31) durante a cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência, realizada em Ouro Preto (MG). De acordo com o Governo de Minas Gerais, além de homenagear a poeta, “o reconhecimento promove uma reparação histórica, já que ela participou ativamente da Inconfidência, mas não teve o devido reconhecimento à época por ser mulher”.
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A entrega da honraria foi instituída em 1952, pelo governador Juscelino Kubitscheck. A cerimônia ocorre tradicionalmente todo dia 21 de abril, Dia de Tiradentes, em alusão a Joaquim José da Silva Xavier, mártir da Inconfidência Mineira, movimento de independência que teve como epicentro a cidade de Ouro Preto, no século XVIII. Tiradentes foi executado em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro.
Em memória à Bárbara Heliodora, o g1 reúne pontos que ajudam a explicar quem foi a heroína da Inconfidência Mineira e o impacto da sua participação na conjuração — antes ofuscada na história do Brasil.
Nesta reportagem, você vai encontrar:
Quem foi Bárbara Heliodora
A Heroína da Inconfidência Mineira
Vida e morte no Sul de Minas
Busca pela memória de Bárbara Heliodora
Heroína da Inconfidência Mineira: Bárbara Heliodora vai ganhar homenagem em museu
Reprodução/EPTV
Quem foi Bárbara Heliodora
Nascida em 1759, Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira foi uma mulher importante na Inconfidência Mineira (1789). O movimento, também conhecido como “conjuração mineira”, foi uma das maiores revoltas organizadas contra a Coroa Portuguesa durante o período colonial. Tiradentes foi um dos envolvidos.
No contexto histórico do século XVIII, Bárbara viveu em um momento regido pela descoberta de ouro e pedras preciosas em Minas Gerais. Na época em que mulheres não eram alfabetizadas, ela foi uma das primeiras a ousar escrever poesias no Brasil.
“Bárbara Heliodora entra na história brasileira como uma mulher que se tem notícias a escrever poemas, (embora só se tem um soneto creditado a ela), isto lhe-dá o título de primeira poeta do Brasil”, explica o historiador e cineasta Marcelo Nascimento ao g1.
Casada com o poeta Inácio José de Alvarenga Peixoto desde 1781, ela teve quatro filhos – uma mulher e três homens. Há relatos de que o casal cedia a casa para as reuniões dos inconfidentes e que ela era integrante ativa dos encontros, participando e expressando suas opiniões.
Casa onde viveu Bárbara Heliodora virou um museu em São João del Rei
Governo de Minas/Reprodução
“Bárbara Heliodora foi uma das poucas mulheres que esteve ativamente no movimento. Sua casa na então Vila de São João del Rei, nos anos de 1788 e 1789, foi local das reuniões que almejavam a independência de Minas Gerais e do Rio de Janeiro de Portugal (os inconfidentes não tinham a pretensão de que todo o Brasil se libertassem de Portugal, mas sim, Minas Gerais e Rio de Janeiro). Ainda que faltem documentos que provem a participação de Bárbara Heliodora, ela participou, sim, diretamente dos planos da conjuração mineira”, diz Nascimento.
Entre as incertezas do passado e a falta de documentos oficiais, até a grafia do nome dela é rodeada de questionamentos por parte de historiadores. Há quem diga que seja ‘Heliodora’ e quem acredite que ‘Eliodora’ seja a versão correta.
Ao se escrever sobre Bárbara Eliodora, recorrer aos documentos se faz insuficiente, pois no material levantado são notórias as incertezas sobre a escrita do nome e discussões em torno da data de seu nascimento. Além da procura por registros da época ser difícil, a por materiais atuais é dúbia, pois estão repletos de releituras controversas dos documentos antigos.
Conforme registros do Museu Regional de São João del Rei, o currículo de Bárbara Heliodora revela um histórico de “mineradora, visionária, política e poetisa, além de uma exemplar formação religiosa, social e cultural”.
A Heroína da Inconfidência Mineira
Em pesquisas, ela é tida como a “Heroína da Inconfidência Mineira”, sendo considerada possivelmente a primeira mulher a se envolver em um movimento político no Brasil. De personalidade marcante, ela mostrou honra ao grupo e sua pátria diante da descoberta da conjuração.
“O legado de Bárbara Heliodora entra na parte de mulher fiel companheira e que foi atingida severamente na punição ‘pelas mãos da coroa portuguesa’ com relação às penas dos quais os inconfidentes foram sentenciados. […] Quando num ato de desespero seu marido, Alvarenga Peixoto, pensou em trair os companheiros para ‘salvar a própria pele’, Bárbara foi firme e não deixou que ele cometesse tal infâmia. Isto foi na tradição histórica a sua consagração e a coloca como uma mulher honrada que preferiu o sofrimento do que ser uma traidora o deixar seu marido assim o ser”, explica o historiador.
Devido ao envolvimento na conjuração, Alvarenga Peixoto foi preso em maio de 1789. A Coroa Portuguesa retirou sua honra ao declará-lo infame e ele foi exilado na África, onde morreu pouco tempo depois.
À época, os bens da família foram confiscados, mas Bárbara conseguiu ficar com um sobrado onde moravam. O imóvel, característico do período colonial, foi conservado e abriga atualmente o edifício da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de São João Del Rei.
Casa de Bárbara Heliodora, em São João del Rei, MG
Reprodução / Luana Carvalho
Conforme o Museu Regional, outra parte dos bens foi arrematada em um leilão por um amigo de Peixoto, a pedido de Bárbara, e restituída a ela posteriormente.
Vida e morte da heroína ‘apagada’ da história
O historiador relata que o casal inconfidente ficou marcado na história sul-mineira por pelo menos dois motivos: além das terras que possuíam no Sul de Minas, Alvarenga Peixoto chegou a ser ouvidor desta região; ele atuou no cargo judicial e administrativo, como seria um ministro atualmente.
“Quando os homens foram presos, inclusive seu marido, nenhum deles entregou suas esposas. Ao contrário: todos protegeram as companheiras que estiveram com eles. No entanto, Bárbara Heliodora era tão ativa que foi uma das que mais sofreu perseguição e, junto com seus filhos, veio morar no arraial de São Gonçalo, no Sul de Minas, onde tinham terras. Evitando, assim, as fortes perseguições e humilhações porque passaram os inconfidentes”, pontua.
Após a morte de Peixoto, ela passou a viver com a irmã e os filhos – exceto a mais velha, que morreu ainda na adolescência. A partir disso, relatos dão conta de que ela teria “enlouquecido” e passado o resto da vida mendigando na cidade.
“Na verdade, Bárbara não ficou louca. Isso foi dentro de sua vida um processo de jogada para que ela não perdesse a metade dos bens que lhe era de direito; Portugal queria pegar todos os bens no confisco da pena. Saiu do controle a tática processual e virou um ponto negativo na sua história”, ressalta o historiador ao g1.
“Hoje sabemos que ela viveu por cerca de 60 anos, levou uma vida religiosa pertencendo à Ordem Terceira do Carmo de São João Del Rei e que foi muito estimada e promissora em sua vida. Mas sua grande dor continuou sendo a ferida aberta da grande falta que fez em toda a sua vida o seu eterno amor, o poeta Alvarenga Peixoto, aquele a quem ela amava e admirava”, afirma.
No ano de 1819, Bárbara Heliodora morreu e foi enterrada na Igreja primitiva de São Gonçalo do Sapucaí. De acordo com o registro, à época, foi sepultada “das grades para cima” – expressão que indicava distinção social, sepultada perto do altar e dos santos.
Cerca de 100 anos depois, na década de 1920, a igreja velha foi demolida e todos os sepultados no piso foram trasladados para o novo cemitério; a maioria agora foi enterrada em vala comum. Desde então, não havia existido nenhuma certeza sobre sua localização.
“Se perdeu ali para sempre os restos mortais de Bárbara Heliodora. A terra, o tempo e o descaso histórico da época contribuíram para que hoje, se tenha apenas um monte de terra para se prestar homenagem”, completa o historiador.
Para o historiador, a vida de Bárbara Heliodora foi “apagada” por um tempo, mas hoje ela é mais conhecida e a história dela é um pouco mais divulgada.
“O Brasil por um tempo esqueceu seus heróis e sua memória. Agora há um resgate mais atuante dos historiadores e da cultura por um todo”.
Busca pela memória de Bárbara Heliodora
Heroína da Inconfidência Mineira: Bárbara Heliodora vai ganhar homenagem em museu
Duzentos anos após sua morte, por meio do historiador Marcelo Nascimento, Bárbara Heliodora recebeu o título de cidadania in memoriam pela Câmara Municipal de Ouro Preto, incentivando autoridades à busca pelos restos enterrados em local incerto.
O ato visou “repatriar a memória” dela ao lado do marido. A homenagem acontece cinco anos após o início das buscas pelos restos mortais.
“Durante muito tempo houve, em São Gonçalo do Sapucaí, essa dúvida, se Bárbara Heliodora estava sepultada aqui ou não. Então, essa é uma reparação que está sendo feita de que realmente ela está sepultada aqui. E, a pedido tanto do governador de Minas quanto da desembargadora, que fosse feita essa homenagem a ela em Ouro Preto, como forma simbólica, com uma pequena quantidade de terra do túmulo, sendo levada”, pontuou o Diretor de Cultura e Turismo de São Gonçalo do Sapucaí, Stanley Drago.
A cerimônia que sela um dos atos de reparação história à Bárbara Heliodora foi realizada neste domingo (21) em Ouro Preto. A solenidade integrou a Semana da Inconfidência em Conexões e teve dois momentos distintos: o ato da entrega da medalha e a honra militar.
Os despojos, ou seja, uma porção de terra do túmulo de São Gonçalo do Sapucaí serão levados para o Museu da Inconfidência, onde ficarão no Panteão dos Inconfidentes — espaço que abriga também Tiradentes e Alvarenga Peixoto, marido de Bárbara.
Heroína da Inconfidência Mineira: Bárbara Heliodora vai ganhar homenagem em museu
Reprodução/EPTV
De acordo com o Governo de Minas, além de homenagear a poetisa, o reconhecimento promove uma reparação histórica, já que ela participou ativamente da Inconfidência, mas não teve o devido reconhecimento à época por ser mulher.
“Os historiadores hoje colocam luz sobre aspectos que há décadas atrás não eram talvez tão relevantes. A gente não pode esquecer que fazemos parte de uma sociedade patriarcal, machista e que custa para a gente reconhecer o papel das mulheres nessas lutas. Acho que o Museu da Inconfidência, como lugar que nasce para recordar os primórdios dessa história de liberdade, é o melhor lugar para que uma parte simbólica da Bárbara esteja presente”, afirma o diretor do Museu da Inconfidência, Alex Calheiros.
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