Durante o evento J Safra Macro Day, Galípolo destacou que o movimento atual difere de episódios anteriores, por se tratar de um choque de oferta, e não de demanda. “Essa elevação no preço do petróleo tem uma natureza bastante distinta do passado, não decorre de um ciclo de demanda, mas sim de um choque de oferta”, afirmou. Segundo ele, o impacto tende a ser de “inflação para cima e crescimento para baixo”. O presidente do BC explicou que, ao contrário de momentos em que a alta do petróleo estava associada ao aquecimento da economia global, o atual cenário está ligado a restrições na oferta, o que gera efeitos mais negativos sobre a atividade. Veja os vídeos em alta no g1 Veja os vídeos que estão em alta no g1 🔎 O petróleo Brent, referência global, chegou a US$ 116,5 o barril nas primeiras horas de negociação desta segunda-feira (ainda na noite de domingo no horário de Brasília). Por volta das 9h10, avançava 2,07%, a US$ 114,90. Já o WTI, referência nos Estados Unidos, subia 1,68%, para US$ 101,31. O movimento ocorre em meio às tensões no Oriente Médio, que aumentaram a preocupação dos investidores com possíveis impactos sobre o fornecimento global de petróleo. O receio é que o conflito provoque uma alta mais persistente dos preços de energia, pressionando a inflação e aumentando o risco de desaceleração econômica em várias partes do mundo. Brasil em posição relativamente mais favorável Galípolo também ressaltou que, apesar do ambiente internacional mais desafiador, o Brasil se encontra em uma posição relativamente mais favorável em comparação a outros países. “O Brasil hoje se beneficia de ser um exportador líquido de petróleo”, disse. Ele ponderou, no entanto, que ainda há impactos relevantes relacionados à importação de derivados e à dinâmica de preços no setor. Além disso, destacou que o nível mais elevado da taxa de juros no país contribui para essa posição relativa. “O diferencial de juros, estarmos em um patamar mais contracionista comparativamente a outros bancos centrais, também nos coloca numa situação mais favorável”, afirmou. Ainda assim, o presidente do Banco Central ressaltou que o cenário ideal seria a ausência de choques externos. “Era melhor que não tivesse nenhum tipo de conflito ou impacto como esse. Estamos falando de uma comparação relativa”, completou. Segundo a última ata do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC avaliou que a guerra no Oriente Médio piorou o cenário de inflação, com alta do petróleo elevando as expectativas acima da meta. Mesmo após cortar a Selic para 14,75% ao ano, o BC indicou que o ritmo de queda dos juros deve ser mais lento e evitou sinalizar próximos passos, diante das incertezas. A instituição também destacou maior cautela na política monetária, em um ambiente externo mais instável e com sinais de desaceleração da economia brasileira. Política monetária já desacelera setores cíclicos Sede do Banco Central em Brasília — Foto: Raphael Ribeiro/BCB Gabriel Galípolo afirmou que os juros altos já estão fazendo efeito na economia, principalmente nos setores que mais dependem de crédito, como consumo e investimentos. Segundo ele, “ficou claro ao longo deste ano que a política monetária vem surtindo seu efeito, vem fazendo a sua transmissão para a economia”, com reflexos visíveis no crédito e na atividade. Ele explicou que o impacto não é uma queda forte da economia, mas uma desaceleração gradual: “é um efeito de uma desaceleração, de crescimento menor, em especial nesses componentes mais cíclicos”. Sobre o início da queda dos juros, Galípolo disse que o Banco Central optou por começar com um corte menor por cautela, diante das incertezas externas, como a alta do petróleo. 🔎 A taxa básica de juros da economia é o principal instrumento do BC para tentar conter as pressões inflacionárias, que tem efeitos, principalmente, sobre a população mais pobre. “O que foi entendido é que essa gordura acumulada com uma posição mais conservadora ao longo das últimas reuniões permitiu ganhar tempo”, afirmou. Isso, segundo ele, permitiu seguir o plano sem mudanças bruscas: “decidimos seguir com a nossa trajetória e iniciar o ciclo de calibragem da política monetária”. Galípolo resumiu a estratégia do BC com uma comparação: “a gente é mais transatlântico do que jet ski”, indicando que prefere agir de forma mais lenta e previsível, evitando movimentos bruscos em momentos de incerteza.
Guerra no Oriente Médio: alta do petróleo deve elevar inflação e frear economia, diz presidente do BC
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