Segundo ele, esse fator, por si só, não justificaria uma intervenção, já que não existe uma regra que proíba bancos de captar recursos pagando juros mais altos, como fazia o Master. “Aquilo não configuraria um objeto para você liquidar o banco”, disse. “Tinha gente que cobrava que liquidasse o banco porque existiam CDBs sendo emitidos a uma taxa superior ao CDI. Não se trata disso”, completou. Na avaliação do presidente do BC, o problema central estava na combinação entre dificuldades de liquidez, dúvidas sobre a qualidade dos ativos e suspeitas envolvendo carteiras de crédito, o que levou à intensificação da supervisão a partir do fim de 2024. ‘Time da terceira divisão’ causou comoção” Galípolo afirmou que o caso do Banco Master precisa ser analisado com cautela e diferenciado de grandes crises bancárias do passado, que envolveram instituições com relevância sistêmica para o país. Segundo ele, a repercussão atual não se explica pelo tamanho do banco, mas pelo fato de o episódio extrapolar o debate financeiro e envolver suspeitas que exigiram atuação conjunta com autoridades investigativas. Ao explicar o funcionamento de um banco, Galípolo disse que a atividade depende do equilíbrio entre o que a instituição paga aos investidores e o que recebe dos tomadores de crédito. “Você precisa receber mais juros do que você paga e receber o dinheiro antes do que você tem que pagar”, afirmou, ao mencionar o chamado “casamento” entre ativo e passivo. Segundo ele, mesmo sem captar novos recursos, um banco pode manter a solvência se essa estrutura estiver bem organizada. “Se o passivo e o ativo dele estão bem casados, os empréstimos que ele já fez vão começar a voltar (…) para que dê conta que ele pague o passivo”, disse. No caso do Master, o presidente do Banco Central afirmou que o debate público deveria ter se concentrado na qualidade dos ativos, e não apenas no custo da captação. Na avaliação dele, a discussão deu peso excessivo ao quanto o banco pagava aos investidores, quando os problemas estavam nos ativos mantidos pela instituição. Ao diferenciar o episódio de crises bancárias históricas, Galípolo lembrou que Bamerindus, Econômico e Nacional tinham relevância sistêmica, o que tornava os processos de intervenção e liquidação mais complexos. No caso do Master, disse, tratava-se de uma instituição de menor porte, comparável a “um time da terceira divisão”. “A pergunta dos meus pares é: por que que um time da terceira divisão está causando esse tipo de comoção?”, afirmou. Segundo ele, a resposta está no fato de o caso ter ido além da regulação financeira. “Esse é um tema que transcende o tema financeiro”, disse, ao explicar a necessidade de colaboração com a Polícia Federal e o Ministério Público. “É bastante importante tomar cuidado com as palavras. O Banco Central não faz notícia de crime. O Banco Central noticia fatos”, afirmou, ao explicar o envio das informações às autoridades competentes. *Reportagem em atualização Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, em evento da Associação Brasileira de Bancos (ABBC). — Foto: Divulgação/ABBC
