Abstenções e votos em branco e nulos somam 24,63% do eleitorado na disputa presidencial
O Vale do Jequitinhonha e o Leste de Minas concentram oito das dez cidades com maiores taxas de abstenção do Brasil no primeiro turno das eleições de 2026, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O município de Rio Vermelho lidera o ranking nacional, com 40,09% dos eleitores ausentes no domingo (4).
A presença de cidades da mesma região entre os maiores índices do país chama atenção. Veja quais municípios mineiros aparecem na lista:
Rio Vermelho: 40,09%
Santo Antônio do Itambé: 39,55%
Serra Azul de Minas: 38,71%
Santa Maria do Suaçuí: 37,72%
Chapada do Norte: 37,25%
Jenipapo de Minas: 37,08%
Novo Cruzeiro: 36,46%
Materlândia: 36,33%
🔎 Abstenção é o não comparecimento do eleitor às urnas. O ranking considera a proporção de ausentes em relação ao total de eleitores aptos de cada município.
Os percentuais representam milhares de eleitores que deixaram de comparecer às urnas (veja o quadro completo no fim da reportagem).
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A forte presença de municípios da mesma região entre os maiores índices do país chama atenção. Das oito cidades mineiras da lista, seis estão localizadas no Vale do Jequitinhonha e duas estão no Vale do Rio Doce.
O que explica a concentração de cidades mineiras no ranking?
Região do Vale do Jequitinhonha concentra os maiores números de abstenção
Reprodução/TV Globo
Para o cientista político Luiz Ademir de Oliveira, doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a concentração não é obra do acaso.
Segundo ele, as cidades da lista compartilham características socioeconômicas semelhantes, especialmente no Vale do Jequitinhonha, região que historicamente apresenta indicadores sociais mais baixos do que a média nacional.
“Rio Vermelho tem um Índice de Desenvolvimento Humano muito baixo, de 0,558. Isso indica uma população de baixa renda, o que pode ser um dos fatores que explicam essa alta abstenção eleitoral”, afirmou.
O professor destaca que, nesses municípios, a ausência dos eleitores nas urnas parece estar mais relacionada a dificuldades práticas e condições sociais do que propriamente à insatisfação com a política.
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“Pode ter a ver com população mais idosa, dificuldade de deslocamento, dados desatualizados e também alguma descrença. Mas, no caso dessas cidades, pesam muito as condições econômicas e sociais da população”, explicou.
Professor apontou cinco fatores
De acordo com Luiz Ademir, a abstenção eleitoral pode ser explicada por um conjunto de fatores que atuam simultaneamente.
O primeiro deles é a migração interna. Muitos moradores deixam cidades pequenas para trabalhar ou estudar em centros maiores, mas mantêm o título eleitoral no município de origem. Quando não retornam para votar, acabam entrando na estatística da abstenção.
Outro fator é a desatualização cadastral. Segundo o cientista político, parte dos eleitores não transfere o título para o novo município de residência ou deixa a situação eleitoral irregular.
A descrença na política também influencia os índices. O especialista ressaltou, porém, que esse fator costuma ser mais forte em cidades médias e grandes, onde parte da população demonstra maior desconfiança em relação às instituições e aos atores políticos.
“O sentimento é de que votar não vai mudar nada. Essa relação de custo-benefício ajuda a explicar uma parcela das ausências e é um fenômeno observado em todo o Brasil”, disse.
Além disso, o perfil socioeconômico dos municípios aparece como um elemento importante. Cidades com menor renda e indicadores sociais mais baixos podem enfrentar obstáculos relacionados ao acesso à informação e à participação política.
Por fim, o envelhecimento da população também entra na lista de explicações. Segundo o professor, pessoas idosas podem encontrar mais dificuldades para se deslocar até os locais de votação, especialmente em municípios com população espalhada por áreas rurais.
Um retrato das desigualdades regionais
Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais
Reprodução/TV Globo
Para Luiz Ademir, a concentração de municípios do Vale do Jequitinhonha entre as cidades com maior abstenção do país revela um cenário de exclusão social que vai além das eleições.
“Isso mostra dois Brasis. Um Brasil mais excluído, que precisa de políticas públicas de inclusão. São populações que ainda vivem em condições mais precárias e isso acaba refletindo também na participação política”, afirmou.
Na avaliação do especialista, é a combinação desses fatores sociais, econômicos, demográficos e de mobilidade que ajuda a explicar por que tantas cidades do Vale do Jequitinhonha e do Leste de Minas aparecem entre as maiores taxas de abstenção eleitoral do país.
Veja os números da abstenção em cada cidade
Os dados do TSE mostram que Rio Vermelho tinha 10.175 eleitores aptos no primeiro turno. Desse total, 6.096 compareceram às urnas e 4.079 não votaram. A cidade teve a maior taxa de abstenção do país, de 40,09%. Veja os dados dos oito municípios mineiros que aparecem no ranking:
Eleições 2026 – Maiores abstenções do país
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