Coreia do Norte nega envolvimento em roubo bilionário à Binance

(FOLHAPRESS) – A Coreia do Norte afirmou que não teve qualquer envolvimento no furto de US$ 6,3 bilhões da Binance, ocorrido na última quinta-feira (29), e classificou a acusação do FBI como uma “acusação banal” e uma “retórica absurda”. A polícia norte-americana atribuiu o roubo a um grupo de hackers chamado TraderTraitor, da Coreia do Norte, que também já foi acusado de roubar US$ 1,5 bilhão da corretora Bybit, em fevereiro de 2025. Kim Yo-Jong, influente irmã do líder norte-coreano Kim Jong-Un, disse que as acusações dos EUA provavam que Washington continuava hostil a Pyongyang, segundo reportagem divulgada na terça-feira pela agência estatal de notícias KCNA. “O FBI está tentando rotular a RPDC [República Popular Democrática da Coreia] como um ‘Estado cibercriminoso’. Mas a alegação dos Estados Unidos é uma retórica absurda e não traz nada de novo”, afirmou Yo Jong, dirigente do partido governista. “É uma grave provocação política contra a RPDC o fato de os Estados Unidos induzirem a opinião pública internacional a acreditar que todos os crimes cibernéticos cometidos em diferentes partes do mundo são obra nossa”, disse a irmã do líder norte-coreano. Especialistas em segurança cibernética afirmam que hackers norte-coreanos estão entre os ladrões de criptomoedas mais ativos do mundo e que os recursos obtidos ajudam a financiar os esforços do país para desenvolver armas nucleares e mísseis balísticos capazes de atingir os EUA. Estimativas da empresa de análise de blockchain Elliptic apontam que grupos ligados à Coreia do Norte teriam roubado US$ 7,6 bilhões em criptomoedas neste ano, a maior quantia da história. O regime socialista nega as acusações que o associam a roubos de criptomoedas e outros crimes cibernéticos. Analistas em Seul disseram que a resposta excepcionalmente rápida de Pyongyang provavelmente refletia a preocupação de que a acusação pudesse levar a medidas mais rigorosas para interromper as fontes de receita que a Coreia do Norte é acusada de usar para financiar seus armamentos. “Com as sanções já em vigor, o roubo de criptomoedas tornou-se um dos principais canais usados pela Coreia do Norte para obter recursos destinados à manutenção do regime e ao desenvolvimento de armas”, disse Lim Eul-chul, professor do Instituto de Estudos do Extremo Oriente da Universidade Kyungnam. Medidas adicionais dos Estados Unidos contra carteiras de criptomoedas, redes de lavagem de dinheiro e bolsas de criptomoedas poderiam bloquear uma importante fonte de receita, afirmou Lim. O Banco Central da Coreia do Sul estimou o PIB (Produto Interno Bruto) da Coreia do Norte em 47,18 trilhões de wons (US$ 35,09 bilhões) em 2025, o que significa que o roubo da Binance poderia equivaler a cerca de um sexto de sua produção econômica. A empresa de análise de criptomoedas Chainalysis estimou que 89% das perdas decorrentes de invasões envolvendo criptomoedas em 2026 estavam ligadas à Coreia do Norte, ante 15% em 2021. Segundo a empresa, a perda média relatada por ataque subiu de US$ 50,65 milhões, em 2021, para US$ 185,65 milhões, em 2026. “Acho que isso poderia ser chamado de caça a grandes alvos: eles miram essas bolsas maiores, o que pode exigir mais tempo e maior complexidade… mas a recompensa pode ser relativamente alta”, avaliou Alec Zebrick, gerente sênior de serviços globais para a Ásia-Pacífico da Chainalysis. DEMORA PARA LAVAR O DINHEIROAnalistas ouvidos pelo Financial Times afirmam que os hackers devem levar meses para lavar os US$ 6,3 bilhões roubados da Binance. Embora os autores do crime tenham começado imediatamente a lavar os criptoativos roubados e estejam usando ferramentas automatizadas para realizar milhares de transações, especialistas em rastreamento de criptoativos afirmam que o processo será longo. Os tokens roubados estão visíveis para as autoridades em blockchains públicas, mas os hackers deram início a um processo longo e complexo para movimentá-los em pequenas quantidades por meio de diversas plataformas, na tentativa de dificultar ao máximo o rastreamento do fluxo dos recursos. “Isso vai levar semanas, meses e talvez até anos… Eles vão mantê-los parados por um longo período e tentar identificar oportunidades para convertê-los em dinheiro”, afirmou Phil Larratt, diretor sênior de serviços globais da Chainalysis. Os mercados de empréstimos de finanças descentralizadas e os serviços de troca de criptoativos são fundamentais para a operação de lavagem. Usados para trocar um tipo de criptoativo por outro sem que os proprietários tenham de vender nenhum token, esses serviços estão sendo utilizados pelos hackers para converter os tokens roubados em outros ativos. Eles recorrem a métodos sofisticados de automação para dividir e enviar os recursos a milhares de novas carteiras, na tentativa de acelerar a movimentação do dinheiro e dificultar o rastreamento. A blockchain Tron, criada pelo magnata dos criptoativos e doador de Donald Trump, Justin Sun, é amplamente considerada uma ferramenta importante para lavadores de dinheiro. A Anti-Money Laundering Network chamou a Tron de “uma plataforma notória para esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro”, preferida por criminosos por causa de suas “transações de alta velocidade e baixas taxas”. A Elliptic afirmou que cada dólar em tokens lavado pelos hackers por meio da Tron já havia sido movimentado nove vezes até o fim de semana, o que evidencia a escala da operação. No auge da atividade, no sábado, uma transação era enviada a cada três segundos, segundo a empresa. A Binance ainda investiga como os hackers conseguiram comprometer seus sistemas e trabalha com o FBI e empresas de análise de blockchain para tentar rastrear os recursos. A empresa anunciou aos usuários que vai reembolsar todos os tokens roubados pelos hackers. O pagamento será feito com recursos próprios, incluindo cerca de US$ 1 bilhão em bitcoin mantido em seu fundo de emergência e uma parcela de suas próprias receitas denominadas em tokens. “A empresa está em situação financeira muito sólida”, afirmou Richard Tang, co-CEO da Binance, em evento em Hong Kong, nesta terça-feira, acrescentando que 95% dos tokens afetados já haviam sido repostos. “Isso é algo que podemos cobrir. Temos condições de fazer isso”. Binance diz que 95% dos ativos afetados foram repostos A corretora também realizou uma nova atualização de sua Prova de Reservas (PoR), para oferecer aos usuários uma visão atualizada dos ativos mantidos na plataforma. Segundo a Binance, os clientes que possuem qualquer um dos tokens afetados podem verificar seus saldos de forma independente. Estadao Conteudo | 19:15 – 02/11/2026

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