ONG busca ciência para orientar manejo sustentável de costões rochosos

ONG busca ciência para orientar manejo sustentável de costões rochosos

Em um dos pontos de mergulho mais preservados e reservados do litoral do país, Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do estado do Rio de Janeiro, pesquisadores mergulhadores exploram o mar cristalino e realizam o trabalho de contagem e identificação de peixes. Como eles mesmo chamam, é um censo do fundo do mar.

A uma profundidade de 7 a 8 metros (m), eles utilizam instrumentos para delimitar uma extensão de 20 m e para anotar as quantidades e as espécies de peixes. No meio da atividade, eventualmente, ganham a companhia de tartarugas marinhas.




Mergulhadores usam uma cartela de cores para facilitar a identificação de corais, na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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Com um vasto conhecimento sobre as espécies, esses pesquisadores muitas vezes sequer precisam consultar o catálogo que facilita a identificação dos peixes. Em meio a instrumentos, uma cartela ajuda a perceber a coloração dos corais, indicativo da saúde desses seres subaquáticos.

O censo marítimo, que acontece também nos litorais vizinhos de Cabo Frio e Búzios, é realizado a cada seis meses. Mais para o sul do estado, em Angra dos Reis, na Costa Verde, a contagem será feita anualmente.

A atividade faz parte do Projeto Costão Rochoso, da organização não governamental (ONG) Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, que atual em parceria com a Petrobras.

Costões rochosos

Costão rochoso é o nome que se dá ao ecossistema presente na transição entre mar e continente, formado por pedras e paredões, grande parte submersa. Em alguns pontos são aquelas grandes pedras que são vistas nas pontas das praias e têm a parte acima do litoral coberta por vegetação. Em outros, são enormes costões, como a Pedra do Arpoador e o morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

Esses ecossistemas, por fazerem a ligação do oceano com a terra firme, servem de abrigo e são ricos em alimentação para a vida, tanto marinha quanto para aves e seres da chamada entremarés ─ as partes ora submersas, ora expostas, dependendo da maré. Vivem nas entremarés cracas, mexilhões, algas e caranguejos, por exemplo.

Os costões rochosos são mais presentes da metade superior do litoral do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. Há alguns fragmentos também no Nordeste.

 




Cardume de peixes sob o costão rochoso na Praia do Forno, na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O projeto foi iniciado em 2017, a partir de pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF). A atuação começou pela Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, um lugar protegido e marcado pela riqueza em biodiversidade, como explica a bióloga marinha Juliana Fonseca, cofundadora do projeto.

Juliana conta que a rica biodiversidade ─ hotspot, no jargão ambiental ─ é explicada por uma questão geográfica: o fato de Arraial do Cabo ser um “cotovelo” do litoral brasileiro, fazendo a divisão entre águas mais frias, que vêm do sul do Oceano Atlântico, e mais quentes, vindas do Nordeste.

“A gente tem pelo menos 200 espécies de peixes. Todas as cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil passam aqui um tempo. Além disso, a gente tem diversas espécies de aves, de algas, uma infinidade’, descreve ela.

No mar fluminense, é possível avistar exemplares encontrados até no Caribe.

Um dos mergulhares e biólogos do projeto, Marcos de Lucena assinala que a característica faz com que o mar de Arraial do Cabo seja mais biodiverso que o litoral nordestino. 

“Tem uma riqueza muito maior que Fernando Noronha”, diz, comparando ao arquipélago na costa de Pernambuco.

 

Berçário e espécies ameaçadas

Os costões rochosos são também uma espécie de berçário natural, ou seja, muitos peixes pequenos são encontrados perto das rochas.

A Agência Brasil acompanhou o censo marinho no ponto de mergulho conhecido como Pedra Vermelha.

“É uma área que não tem turismo. Só tem mergulho para pesquisa, de quem tem licença”, detalha a bióloga Juliana Fonseca.

Como a área é uma reserva extrativista federal, a licença para o chamado mergulho científico é concedida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ligado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.




O biólogo Moysés Cavichioli monitora o ecossistema na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Além de peixes, o monitoramento realizado pelo projeto identificou a presença de seres como corais, lulas e polvos.

O biólogo marinho Moysés Cavichioli Barbosa, coordenador-geral do projeto, indica que o trabalho de monitoramento encontrou animais ameaçados.

“Em termos de animais ameaçados, a gente tem muita garoupa, mero, badejo, budiões, raias e tartarugas. Dentro das espécies que a gente trabalha, deve ter pelo menos umas 15 espécies com algum tipo de nível de ameaça. Tem espécies que só ocorrem aqui no Brasil”, diz.

Tomada de decisão

Barbosa explica que o projeto mantém articulação com órgãos gestores, como o ICMBio, para fornecer informações sobre como deve ser o manejo de atividades como turismo e pesca.

“Tem algumas espécies que o ideal mesmo é ter uma moratória, por exemplo, não pode pescar por dois anos”, exemplifica o biólogo em relação ao budião.

Ele fundamenta a orientação, detalhando que algumas espécies como essa têm características fisiológicas em que todos os indivíduos nascem fêmea.

“Depois de um tempo, um deles faz a reversão sexual e vira macho. Normalmente o maior. E aí vem o pescador e puf! Mata o maior que tem. Então, naquele ano, aquela reprodução já ficou comprometida”, conta.

As evidências científicas repassadas pelo projeto aos órgãos de gestão também incluem pontos como distâncias seguras para a presença de turismo náutico e limite de ruído de motores das embarcações. Uma pesquisa específica tenta identificar até que distância um turista mergulhador pode se aproximar de tartarugas marinhas sem assustá-las.

 




Vista de embarcações de passeios turísticos atracadas na Praia dos Anjos, em Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Mudanças climáticas

O trabalho de monitoramento do Projeto Costão Rochoso inclui a vida encontrada nas entremarés, rochas que ficam expostas em momentos de maré baixa. Um dos estudos é avaliar como seres como algas e mexilhões reagem ao aumento extremo da temperatura ambiente, presente durante ondas de calor.

A bióloga marinha Isis Viana, que acompanha a situação nas entremarés, nota que mudanças de temperatura têm sido mais constantes.

“Tem dias que a temperatura sobe muito, tem dias que baixa muito. Isso afeta essas formas de vida e podem não resistir ao calor”, diz.

“A gente chama esses momentos de extremos de calor. São anormais e acontecem com mais frequência por causa das mudanças climáticas, não tem organismos que sobrevivam”, ressalta ela, que conta com sensores nas rochas e boias oceanográficas, ambos captam a temperatura 24 horas por dia.

O projeto tem também entre os objetivos buscar dados para responder, de forma exata, qual é a proporção do litoral brasileiro formada pelo ecossistema costão rochoso.

 




Costões rochosos, ecossistema formado por rochas na transição entre o mar, na Prainha, área da Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Uso sustentável

Em uma reserva extrativista, a proteção ambiental determina que o uso da natureza deve ser sustentável, com proteção dos meios de vida de populações tradicionais. Pescadores da região, por exemplo, podem exercer a atividade nessas áreas, assim como o turismo é permitido.

O agente de gestão socioambiental Weslley Almeida, do ICMBio, aponta que muitas das demandas necessárias para a gestão da reserva marinha precisam de embasamento científico.

“Essa parceria com o Projeto Costão Rochoso vem para subsidiar essas questões”, diz.

De acordo com Almeida, a reserva é “um ordenamento feito para garantir que esses recursos naturais existam para as próximas gerações dos pescadores artesanais”.

A pesca só é permitida a pessoas da região, seja para subsistência ou fim comercial. Já a pesca industrial é vetada.




O pescador José Antônio Freitas Batista atua há 49 anos na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Há 49 anos, José Antônio Freitas Batista pesca na região. Nas palavras dele, a pesca “representa tudo” para Arraial do Cabo, por isso ele sustenta que a reserva extrativista é razão para a existência da atividade e do equilíbrio com o turismo na região.

“Se a gente não tivesse essa preservação, acho que nem o turismo a gente teria, porque o turismo veio como complemento de renda para a gente não atacar diretamente a pesca com todo o vapor e acabar com os peixes”, disse à Agência Brasil.

Batista lembra que, além do profissional que vai para o mar, a pesca dinamiza a economia da cidade, gerando trabalho para fábricas de gelo, carpinteiros que consertam embarcações, mecânicos de motores de barco e pessoas que fazem instrumentos como redes, anzóis e tarrafas, além de comerciantes. “Uma cadeia depende da pesca”, resume.

Socioambiental

Outra frente de atuação da parceria é levar para a comunidade local a importância do manejo responsável da reserva formada pelos costões rochosos.

De tempos em tempos, os pesquisadores fazem encontros em escolas e capacitam pescadores e familiares de pescadores.




O cientista do mar Yago Ferreira, do Projeto Costão Rochoso, atua com projetos educativos na Reserva Extrativista  Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O cientista do mar Yago Ferreira, que atua nessa interlocução, defende que “a gente não consegue conhecer o que não entende e não entende o que está longe”, por isso a necessidade da aproximação com a sociedade.

“Caminhar para um sentido da construção de uma mentalidade oceânica mais harmoniosa com o ambiente marinho”, disse à Agência Brasil.

O coordenador Moysés Barbosa defende que “atingindo a sociedade, se tem muita gente contribuindo com a conservação do meio ambiente”.

“Isso é muito mais eficaz do que qualquer conhecimento acadêmico que sai apenas em artigo ou que vai apenas lá para Brasília, para um gestor. Trabalhar com a sociedade é muito mais eficiente”, justifica o coordenador.

À Agência Brasil, a prefeitura de Arraial do Cabo informou que realiza estudos técnicos para estabelecer o limite de visitantes em praias e pontos turísticos. “O objetivo é evitar a sobrecarga ambiental e melhorar a qualidade da experiência do turista”, escreveu em nota.

A autoridade municipal acrescentou que trabalha em parceria com o ICMBio para “fiscalização e para o sucesso das políticas públicas” na reserva extrativista marinha.

Parceria renovada

O Projeto Costão Rochoso começou a parceria com a Petrobras em 2023. A iniciativa da empresa é voluntária e faz parte do programa socioambiental da companhia. Em 2026 foi renovada por um período de quatro anos. Cada ciclo passa por avaliação para decidir sobre a continuidade. O investimento para o novo período é de R$ 6 milhões.




A gerente de projetos de responsabilidade social da Petrobras, Ana Marcela Bergamasco, na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A gerente de projetos na área de responsabilidade social da Petrobras, Ana Marcela Bergamasco, assinala que as parcerias exercidas pela empresa precisam aliar interesses ambientais com sociais.

“Tem que trabalhar com a questão social, turismo de base comunitária, com a comunidade e a pesca, mas de uma maneira sustentável, tirando uma visão de que a conservação estaria competindo com alguma atividade econômica”, diz.

“Na verdade, para a população, elas podem andar juntas e uma contribuir com a outra”, completa Ana Marcela.

*Repórter e fotógrafo viajaram a convite da Petrobras, parceira do Projeto Costão Rochoso.

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