O Banco Central do Paraguai iniciou um procedimento para proteger os depositantes e limitar os impactos da crise sobre o sistema financeiro. O caso levou à renúncia do presidente do BC, Carlos Carvallo, e aumentou a pressão sobre o governo de Santiago Peña. A instituição, maior emissora de cartões de crédito do Paraguai, enfrenta problemas financeiros e é alvo de investigações. Após ajustes em seus balanços, o índice de solvência do banco, que indica sua capacidade de cumprir obrigações financeiras, caiu para menos da metade do mínimo exigido por lei. Manifestantes foram às ruas no Paraguai depois da crise no banco digital Ueno — Foto: Daniel Duarte / AFP A crise afetou diretamente os clientes. Nesta terça-feira, quem procurou as agências do Ueno encontrou as portas fechadas. Aplicativos e cartões também deixaram de funcionar, prejudicando inclusive aposentados que recebem benefícios do governo por meio da instituição. O banco administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos no Paraguai, incluindo valores do Instituto de Previdência Social (IPS) e de outros fundos de previdência pública. Diante da situação, clientes foram às ruas para cobrar a liberação do dinheiro depositado no banco. Houve confrontos entre manifestantes e policiais em Assunção. Manifestantes foram às ruas no Paraguai depois da crise no banco digital Ueno — Foto: Daniel Duarte / AFP “Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno”, disse à agência Reuters Manuel Cáceres, morador de Ñemby, nos arredores da capital paraguaia. “Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim.” Para tentar conter os efeitos da crise, o presidente Santiago Peña anunciou um acordo com líderes do Congresso para acelerar a votação de um projeto que permitirá utilizar recursos do Fundo de Garantia do país para ressarcir os depositantes. Peña também afirmou que a medida deve assegurar a devolução de recursos públicos mantidos no banco, incluindo valores do IPS e de outros fundos de previdência. Manifestantes foram às ruas no Paraguai depois da crise no banco digital Ueno. — Foto: DANIEL DUARTE/AFP Investigação e pressão sobre o governo O Ministério Público solicitou a abertura de uma investigação criminal sobre o caso e a prisão de oito pessoas ligadas ao Ueno. Os detidos incluem integrantes da direção e do grupo controlador da instituição. O banco já vinha sendo alvo de uma fiscalização mais rigorosa nos últimos meses. Órgãos reguladores investigavam se o Ueno havia financiado indiretamente a venda de uma carteira de ativos de uma empresa ligada ao Grupo Vázquez, seu controlador. A instituição negou participação na operação. O episódio também aumentou a pressão sobre o governo de Peña. O presidente paraguaio foi sócio do grupo controlador do Ueno até março de 2025. Além disso, Carvallo, que comandou o Ueno até agosto de 2023, vinha sendo criticado por parlamentares por sua atuação na supervisão da instituição. As críticas também atingiam o Banco Central, cuja cúpula foi alvo de pedidos de afastamento por congressistas, após rejeitar um relatório sobre o Ueno por considerá-lo incompleto. Ao anunciar sua renúncia, Carvallo afirmou que permaneceria no cargo durante o procedimento adotado pelas autoridades para lidar com a crise. Segundo ele, sua saída ajudaria a reduzir as controvérsias em torno do Banco Central e permitiria que a instituição e a Superintendência de Bancos atuassem sem disputas políticas e pressão da imprensa. O Banco Central afirmou que o caso do Ueno é isolado e não indica problemas mais amplos no sistema financeiro paraguaio. Peña também tentou afastar preocupações sobre a estabilidade do setor. “Este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”, declarou o presidente. Peña acrescentou que os responsáveis pelo caso “devem responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios”. A Superintendência de Bancos deverá nomear auditores para avaliar a situação dos ativos do Ueno. A crise também chegou ao mercado financeiro. As preocupações com o banco pressionaram os títulos em dólar emitidos pela instituição, com vencimento em 2031, além dos títulos da dívida pública paraguaia. * Com informações da agência Reuters.
