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PIB cresceu, desemprego caiu, mas juros e dívidas pesaram: veja o balanço da economia de Lula 3

por Redação
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A vitória, por uma margem estreita, não elimina o paradoxo enfrentado pelo governo: os resultados positivos da atividade econômica não se traduziram em uma sensação generalizada de bem-estar financeiro. Para economistas ouvidos pelo g1, uma das explicações está no fato de que o crescimento econômico não beneficiou todos os setores e trabalhadores da mesma forma. Além disso, a situação financeira das famílias continua pressionada pelo custo de vida, pelas dívidas e pelos juros elevados, que limitam a folga no orçamento. Agora no g1 Indicadores positivos, alívio limitado no bolso Esses resultados, porém, não significam que todos tenham sentido a melhora na mesma medida. Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), os indicadores agregados escondem diferenças importantes entre os setores da economia e, consequentemente, entre os grupos da população. “O PIB é uma média que reúne setores e famílias que estão, digamos, uns no micro-ondas e outros que estão no freezer. A média parece boa, mas não necessariamente está melhor para todo mundo.” A economista observa que atividades como a agropecuária e a indústria extrativa são influenciadas por fatores como os preços internacionais das commodities. Já o comércio e parte da indústria dependem mais das condições internas, especialmente do consumo das famílias. A diferença também aparece no mercado de trabalho. José Luis Oreiro, professor do departamento de economia da Universidade de Brasília (UnB), observa que boa parte das novas vagas se concentrou em serviços que exigem menor qualificação. Em contrapartida, não houve avanço semelhante nas atividades que exigem formação superior e costumam pagar salários mais altos. O salário mínimo oferece outra referência para avaliar os limites do ganho de poder de compra. Segundo Oreiro, o piso nacional atual de R$ 1.621 ainda está relativamente próximo, em termos reais, dos níveis de 2012 e 2013, apesar da retomada dos reajustes acima da inflação no governo Lula 3. 📊 Corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a variação do custo de vida das famílias, os R$ 622 pagos em 2012 equivaleriam a R$ 1.393 em setembro de 2026. Já os R$ 678 de 2013 corresponderiam a R$ 1.424. Para quem recebe entre um e três salários mínimos, a alta do preço dos alimentos representa uma pressão adicional, acrescenta o professor. Mesmo quando a inflação desacelera, os preços não necessariamente caem: eles podem continuar subindo, apenas em um ritmo menor. Como as famílias de menor renda destinam uma parcela maior do orçamento à alimentação, a continuidade desses aumentos dificulta a preservação do poder de compra, mesmo quando a inflação perde força. “É aquele efeito catraca: o preço dos alimentos subiu desde a pandemia e não caiu, pelo contrário, continuou subindo, porém menos intensamente. E, infelizmente, para as pessoas mais pobres, isso pesa muito”, diz Oreiro. O que melhorou e o que ainda pesa na economia do Lula 3 — Foto: Arte/g1 Endividamento consome renda e limita o efeito das renegociações A pressão sobre o orçamento não vem apenas dos preços. O custo do crédito e o acúmulo de dívidas também reduzem a parcela da renda disponível para outras despesas, limitando o efeito positivo do crescimento do emprego e dos rendimentos. Em julho de 2026, as famílias destinaram 28,7% da renda mensal ao pagamento de dívidas, segundo dados do Banco Central. Desse total, 17,2% foram usados para amortizar o principal — ou seja, “devolver” o valor emprestado — e 11,5% para pagar juros. O comprometimento total permanecia próximo do recorde de 29,7%, registrado em fevereiro. O percentual de famílias endividadas também aumentou. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), a proporção passou de 78% em janeiro de 2023 para 81,7% em setembro deste ano. O cartão de crédito é a principal modalidade de dívida, presente em 85,2% das famílias endividadas. Em meio a esse cenário, o governo lançou três edições do programa de renegociação de dívidas Desenrola, com o objetivo de aliviar as contas das famílias. Para Alessandra Ribeiro, sócia e economista da Tendências Consultoria, as iniciativas podem ajudar a reduzir as dívidas no curto prazo, mas não eliminam as condições que favorecem o endividamento. “As duas primeiras mobilizaram renegociações intermediadas por plataformas que conectavam bancos e famílias. Já a terceira edição buscou ampliar a coordenação do governo federal com as instituições financeiras para obter descontos maiores que poderiam superar 90%.” A redução das dívidas pode liberar dinheiro para outras despesas no curto prazo. O problema, segundo Ribeiro, é que esse alívio não altera fatores como os juros elevados, a escassez de crédito de longo prazo e as dificuldades de planejamento do orçamento familiar. “Sem essas mudanças, a família pode usar o dinheiro liberado para cobrir outras pendências e voltar a se endividar”, explica a economista. Desenrola: veja o alcance das três edições do programa — Foto: Arte/g1 Contas públicas pressionam os juros As condições de crédito enfrentadas pelas famílias também estão ligadas à condução da política econômica. Entre os fatores que influenciam os juros estão as decisões do governo sobre gastos e arrecadação, e a avaliação dos investidores sobre a capacidade de o país administrar sua dívida. Na avaliação de Ribeiro, a dificuldade de controlar as despesas obrigatórias é um dos principais problemas da política fiscal do terceiro governo Lula. Ela cita os reajustes do salário mínimo acima da inflação, a vinculação dos pisos de saúde e educação à arrecadação e a expansão dos benefícios sociais entre os fatores que pressionaram os gastos. 📈 As contas do Governo Central, que reúnem o Tesouro Nacional, a Previdência Social e o Banco Central, registraram déficit primário de R$ 228,5 bilhões em 2023, R$ 42,9 bilhões em 2024 e R$ 61,7 bilhões em 2025. Entre janeiro e agosto de 2026, o saldo também foi negativo, em R$ 94,9 bilhões. A dificuldade de obter superávits primários — quando as receitas do governo superam as despesas, sem contar os juros da dívida — contribui para o aumento do endividamento público, avalia a economista. Em agosto de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a R$ 11,1 trilhões, segundo o BC. Matos também critica a decisão de ampliar os gastos no início do mandato sem garantir receitas permanentes para financiá-los. Na avaliação da economista, a PEC da Transição, que abriu espaço para despesas fora do teto de gastos então vigente, ampliou o desequilíbrio das contas públicas. “O governo entrou com acelerador a mil, tendo os gastos da PEC da Transição sem assegurar de onde viriam as receitas para financiá-los. Ele já entrou com um buraco fiscal muito maior para o período de quatro anos”, afirma Matos. O desequilíbrio das contas públicas pode afetar a economia por diferentes caminhos. 💰 Quando investidores consideram que a dívida pode continuar crescendo sem uma perspectiva clara de estabilização, podem exigir uma remuneração maior por meio de juros mais altos para financiar o governo. 📊 Ao mesmo tempo, a expansão dos gastos pode pressionar a demanda e a inflação, dificultando uma redução dos juros. A intensidade desses efeitos depende das condições da economia e da avaliação do Banco Central. 🔎 Quando a Selic permanece elevada, os juros cobrados em empréstimos e financiamentos tendem a subir, tornando mais caro comprar a prazo. Com isso, as famílias podem adiar a compra de bens de maior valor, como carros e imóveis, ou reduzir outros gastos. As empresas, por sua vez, podem postergar investimentos, o que limita o ritmo da atividade econômica. Matos chama esse mecanismo de “multiplicador fiscal negativo”: em vez de estimular de forma duradoura a economia, o aumento dos gastos públicos pode contribuir para pressões inflacionárias e juros mais altos. Oreiro, por sua vez, critica o desenho do arcabouço fiscal — o conjunto de regras que orienta a evolução das despesas e das contas públicas e substituiu o antigo Teto de Gastos. Para o professor, o modelo tenta conciliar uma meta para o crescimento dos gastos com outra para o resultado primário, sem dispor de instrumentos independentes para garantir o cumprimento de ambas. Ele também ressalta que o pagamento de juros representa uma parcela expressiva do desequilíbrio das contas públicas. Para o economista, a discussão fiscal deveria ir além do controle dos gastos e incluir o custo de financiar o próprio endividamento do Estado. “Combater o desequilíbrio fiscal olhando para o déficit primário, sem considerar o pagamento de juros, é como se o rabo estivesse balançando o cachorro”, argumenta Oreiro. PIB cresce, mas brasileiro ainda aperta o cinto Reforma tributária e independência do BC Apesar das críticas à condução das contas públicas e dos juros, os economistas também identificam medidas do terceiro governo Lula com potencial para produzir efeitos positivos ao longo do tempo. A reforma tributária sobre o consumo é um dos principais pontos de convergência entre eles. A mudança busca reduzir distorções no sistema de impostos, simplificar regras e melhorar as condições para a atividade econômica. Para Ribeiro, a aprovação da reforma foi um avanço, mesmo que o texto final não corresponda à proposta ideal. “Foi a reforma possível, mas ainda assim é algo que vai trazer efeitos positivos para a economia brasileira ao longo do tempo.” Matos também avalia positivamente a manutenção da autonomia do Banco Central e a condução da política monetária sob a presidência de Gabriel Galípolo, indicado por Lula e muito questionado pelo mercado financeiro quando seu nome surgiu como sucessor de Roberto Campos Neto. “Ele surpreendeu muito positivamente. Ele tem o nome dele a zelar e sabe que se jogar a toalha, desanda tudo. O Banco Central é muito técnico e tem a independência”, diz a economista. “Havia uma expectativa na esquerda de que, com Galípolo, a política monetária mudaria de direção. Mas ela não mudou, pelo contrário, ela ficou mais ortodoxa do que era com Campos Neto”, ressalta Oreiro. Política industrial enfrenta obstáculos A política industrial é outro ponto de crítica do professor da UnB. Para ele, a Nova Indústria Brasil não conseguiu elevar de forma significativa a participação da indústria de transformação no PIB nem gerar empregos industriais em escala relevante. Em sua avaliação, os incentivos ao setor perderam força diante dos juros elevados e da valorização do real. Isso porque o custo alto dos empréstimos dificultou os investimentos das empresas, enquanto uma moeda brasileira mais valorizada tornou os produtos nacionais mais caros para compradores estrangeiros. “Taxa de juros muito elevada e custo de capital alta faz com que as empresas não sejam competitivas no mercado internacional. A taxa real de câmbio está defasada e isso também atrapalha as exportações de produtos manufaturados”, argumenta. Ribeiro, por sua vez, destaca medidas do governo que considera positivas na área tributária. Entre elas, estão a revisão de benefícios fiscais que, na avaliação da economista, já não se justificavam e a tributação de fundos mantidos no exterior. “Na nossa avaliação ele acertou: o governo revisou muitas isenções tributárias que não faziam mais sentido, incluindo a questão dos fundos offshore”, diz Ribeiro. 👉 Essa estratégia ganha peso em um cenário de incerteza no comércio internacional, marcado por novas tarifas de Donald Trump sobre parte dos produtos brasileiros e pelos conflitos na Ucrânia e Irã, que afetaram as cadeias de fornecimento. “O governo buscou reduzir a vulnerabilidade do Brasil em relação à EUA e China, buscando outros mercados, fazendo acordos comerciais com outras regiões como UE-Mercosul. Há ainda negociações com o Japão e o Canadá”, afirma. Polarização e frustração de expectativas Acontece que a avaliação do governo não depende apenas dos indicadores econômicos ou das medidas adotadas. Fatores políticos e mudanças sociais também influenciam a forma como a população interpreta os resultados da gestão. Para Matos, essas transformações mudaram a maneira como parte da população, especialmente a classe C — com renda domiciliar mensal entre R$ 2.525 e R$ 10.885 —, enxerga o papel do Estado. Segundo a economista, há uma valorização maior do empreendedorismo e da prosperidade individual, acompanhada de resistência à ideia de depender de políticas sociais. A expansão das igrejas pentecostais também faz parte desse cenário, na avaliação dela. As iniciativas, porém, não foram suficientes para garantir ao presidente uma base de apoio mais sólida entre esses eleitores, capaz de reduzir as dificuldades na disputa. Matos considera que o PT não compreendeu plenamente essas mudanças nem a amplitude da coalizão política que levou Lula de volta à Presidência. Para ela, a vitória eleitoral foi resultado de uma frente ampla contra Jair Bolsonaro, e não apenas do apoio ao projeto petista. Por isso, avalia que o governo deveria ter adotado uma agenda mais próxima do centro político. “O PT acha que venceu as eleições de 2022, quando, na verdade, foi o Bolsonaro que perdeu. Quem venceu, de fato, foi a frente ampla. A agenda, do ponto de vista político e econômico, era para ser mais de centro.” Na avaliação da economista, a polarização também dificulta que o desempenho econômico seja avaliado de forma isolada. A identificação política pode pesar mais do que os resultados de determinadas atividades ou políticas públicas. O agronegócio é um exemplo. Embora tenha apresentado resultados que Matos considera positivos, isso não significa necessariamente que os empresários e trabalhadores do setor avaliem bem o governo. “Não é só a economia que explica, há muito de visão de mundo. Cada um está no seu grupo e, por definição, o outro é o inimigo. Não é uma avaliação 100% numérica.” Oreiro aponta outro fator que ajuda a explicar a avaliação do governo: a distância entre o que parte da população esperava e o que efetivamente aconteceu. Segundo o professor, a volta de Lula à Presidência alimentou a expectativa de que a prosperidade associada aos primeiros mandatos do petista seria retomada rapidamente. A melhora dos indicadores, na avaliação dele, não foi suficiente para corresponder a essa expectativa. “As pessoas estavam muito esperançosas que ele retornaria com a prosperidade do governo Lula 1 e 2, até do governo Dilma 1. Houve uma frustração de expectativas: melhorou, mas não o que as pessoas esperavam. Os brasileiros lembram de como era bom em 2011 e 2012, e ainda não voltaram àquele padrão.”

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