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Ueno Bank: escândalo que levou à queda do presidente do Paraguai pode ser comparado ao do Banco Master?

por Redação
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A crise bancária, de um banco com fortes laços políticos e envolvendo montante relevante de recursos públicos, incluindo aposentadorias, levou a comparações entre à crise do Ueno com a do banco Master, no Brasil. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, apontam que, de fato, há muitos pontos de contato entre os casos, mas também diferenças relevantes, como a escala do Ueno na economia paraguaia, e a proximidade direta do banco com o presidente do país – que já estava politicamente fragilizado por crises internas dentro de seu partido, o Colorado, o que acabou precipitando sua rápida queda. “É impressionante a semelhança entre os casos Master e Ueno. Nos dois houve exposição relevante de recursos públicos, inclusive da previdência, crescimento muito rápido apoiado em ativos frágeis e relações próximas com o mundo político”, afirma Thiago Amâncio, diretor associado da equipe de riscos geopolíticos da consultoria Control Risks. “Mas a diferença fundamental é a dimensão do Ueno no sistema paraguaio, já que quase metade da população tem conta no banco. É uma escala completamente diferente da do Master, que se tivesse um tamanho equivalente teria provocado uma crise financeira imensa por aqui, não só política.” Crescimento rápido O Ueno surgiu da aquisição em 2021 da antiga Financiera El Comercio pelo Grupo Vázquez. A marca Ueno foi lançada em fevereiro de 2022. Em novembro do ano seguinte a instituição recebeu autorização do Banco Central do Paraguai (BCP) para operar como banco. Em 2024, incorporou o Visión Banco, ampliando sua carteira de clientes e operações. Assim, pouco mais de três anos, o banco tornou-se um dos principais do Paraguai e, segundo dados da própria instituição, tinha 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% da população adulta do país. Já no caso do Master, Daniel Vorcaro entrou como sócio do então Banco Máxima em 2017. Dois anos depois, o Banco Central do Brasil autorizou a transferência do controle da instituição para o banqueiro e, em 2021, o banco passou a se chamar Banco Master. As estratégias dos bancos para conquistar clientes, porém, foram diferentes: enquanto o Ueno apostou na abertura digital de contas, em descontos e na devolução de parte do valor das compras, o Master atraiu investidores com CDBs (Certificados de depósito bancário) que ofereciam remuneração muito acima da média do mercado. “O Ueno era um banco de varejo, que cresceu ampliando a base de clientes, então ele foi agressivo no cartão de crédito e abertura de contas, enquanto o Master estava mais preocupado em comprar ativos, captar dinheiro e usar esse dinheiro para alavancar ativos com baixa liquidez”, observa Alexandre Jorge Chaia, professor nas disciplinas de gestão de riscos financeiros e produtos bancários no Insper. “Os dois cresceram bastante, mas foi em ritmos bem diferentes. O Ueno Bank, em três anos, saiu de um banco inexpressivo para um dos principais bancos do país. Já no caso do Master, foram seis anos de crescimento, mas do ponto de vista de relevância, nunca foi grande.” Exposição a recursos públicos e aposentadorias No Paraguai, o Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, entre eles fundos do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias, pensões e outros benefícios. No Brasil, regimes próprios de previdência de Estados e municípios investiram cerca de R$ 1,8 bilhão em títulos emitidos pelo Master, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Relações com o mundo político No Paraguai, o Banco Central apontou empréstimos considerados excessivos a empresas ligadas ao grupo controlador do Ueno, o Vázquez, que teve Santiago Peña como acionista até o ano passado e o ex-presidente do Banco Central paraguaio como executivo. No Brasil, Daniel Vorcaro, do Master, construiu uma extensa rede de contatos om políticos, integrantes do governo e autoridades do Judiciário. Entres os atingidos pelo escândalo, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL), chegou a ser alvo de busca e apreensão como parte da operação Compliance Zero. BCs sob suspeita Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da agência de risco Austin Ratings aponta ainda uma quarta semelhança entre os casos: as relações próximas reveladas entre instituições financeiras privadas e os bancos centrais dos dois países, responsáveis por fiscalizar o sistema bancário. Ele lembra que o Master cooptou diretores do Banco Central para atuarem em favor do banco, caso de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do BC, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária. De acordo com as investigações, Santana e Souza prestavam uma espécie de consultoria para Vorcaro, fornecendo informações estratégicas de dentro do BC e orientando sobre decisões do Master. Já no caso do Ueno, a indicação de Carlos Carvallo para o banco Central paraguaio levanta suspeitas de que a autoridade monetária tenha sido leniente na fiscalização, mesmo diante de evidências de que o banco já enfrentava problemas de liquidez desde pelo menos o mês de junho. Senado do Paraguai aprova por unanimidade impeachment de Santiago Peña Prisões No Paraguai, o juiz responsável pelo caso Ueno determinou na quinta-feira (5) a prisão preventiva de seis ex-dirigentes e executivos do banco, entre eles Juan Manuel Gustale, ex-presidente da instituição, e Federico Miguel Vázquez Villasanti, fundador do Grupo Vázquez, controlador do banco. Outras duas ex-diretoras receberam prisão domiciliar. Os investigados respondem a acusações que incluem abuso de confiança, tentativa de fraude e conduta indevida em situação de crise. As acusações ainda serão examinadas pela Justiça. Diferença de escala Apesar das semelhanças, o peso de cada instituição em seu sistema financeiro é uma diferença importante nos dois casos. O Ueno acumulava cerca de US$ 3,75 bilhões em ativos e concentrava aproximadamente 9,1% dos depósitos do sistema bancário paraguaio. O Master, por sua vez, tinha R$ 86,8 bilhões em ativos, mas representava cerca de 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro. A diferença também aparece na dimensão do impacto da crise. Com a decisão do Banco Central paraguaio de iniciar o processo de resolução da instituição, em 3 de novembro, os depósitos e as operações do banco foram congelados. “No caso do Ueno, é um banco que teve uma penetração muito maior na economia paraguaia”, observa Santacreu. “Era um banco que tinha conquistado uma simpatia do público, porque tinha uma linguagem muito acessível, como se fosse um Nubank aqui no Brasil.” Já o Master chegou ao grande público principalmente através do investimento em CDBs. Por esse motivo, diz o analista da Austin Ratings, sua liquidação nunca ofereceu risco ao sistema bancário brasileiro e penalizou principalmente o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que precisou desembolsar mais de R$ 40 bilhões para ressarcir os clientes lesados. Por que o caso Ueno levou à queda de Santiago Peña? Santiago Peña, presidente do Paraguai desde 2023 que renunciou ao cargo em 5 de novembro de 2026. — Foto: REUTERS/Cesar Olmedo/File Photo Mas a diferença de escala das crises não é suficiente para explicar por que o presidente paraguaio Santiago Peña foi destituído, e a crise do Master no Brasil não impediu que Lula fosse reeleito no mês passado — o que tem sido citado por bolsonaristas nas redes sociais. “Uma diferença fundamental é a proximidade do Ueno com o presidente especificamente, não só com membros do alto escalão da política, já que Peña foi acionista do grupo controlador da Ueno e o governo está sendo questionado por decisões que teriam favorecido o banco”, observa Thiago Amâncio, da Control Risks. “No Brasil, as relações políticas do Master são importantes e muito amplas, mas são mais difusas e envolvem outras autoridades, além do fato de que não teve uma conexão formal entre o presidente [Lula] e o banco – o que é um dos motivos para a queda do Peña.” Junior Ivan Bourscheid, professor de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), observa ainda que Peña enfrentava uma situação de desgaste dentro de seu partido, o Colorado, que já vinha de antes da crise bancária. O Partido Colorado, de direita, governa o Paraguai de forma quase ininterrupta desde 1947. A única exceção foi o governo de Fernando Lugo, da coalizão de esquerda Frente Guasú, que governou entre 2008 e 2012, tendo o mandato interrompido por um impeachment. “Quando Peña fez sua campanha e no início do governo, ele conseguiu compor uma maioria dentro do partido Colorado, que tem muitas facções internas”, observa Bourscheid. “Mas com o tempo, vários grupos dentro do partido se sentiram relegados pelo presidente.” Além disso, a oposição já vinha fazendo denúncias de corrupção e de má gestão de recursos públicos por parte do governo, mas sem conseguir obter uma maioria par que as acusações levassem a desdobramentos mais sérios, como um impeachment. A gota d’água para a manutenção de Peña no poder, no entanto, foi a perda de apoio de Horacio Cartes, a figura política mais poderosa do Paraguai, que controla a principal facção do Partido Colorado, o Honor Colorado, e que foi o principal padrinho político de Peña. “O presidente foi sacrificado por Cartes para tentar evitar que o escândalo contaminasse o partido antes da eleição de 2028”, considera Amâncio, da Control Risks. Amâcio observa que o Honor Colorado já vinha de uma crise interna desde outubro, quando Cartes tentou retirar o apoio à candidatura presidencial para 2028 de Pedro Alliana — que assumiu a presidência após o impeachment de Peña — e substituí-lo por outro nome, Juan Carlos Baruja. “Isso provocou uma reação forte e 15 governadores colorados declararam apoio unânime a Alliana, assim como deputados importantes, e o vice afirmou que manteria sua candidatura mesmo que precisasse disputar fora da estrutura tradicional do Honor Colorado. Peña também se posicionou ao lado de Alliana”, lembra Amâncio. Além disso, nas eleições municipais deste ano, o partido Colorado perdeu Asunción e Ciudad del Este, as duas principais cidades do país, o que foi politicamente muito simbólico, observa. “Então chega a crise do Ueno, com um partido pressionado nas grandes cidades e o Honor Colorado escapando do controle do Cartes. Manter Peña no cargo diante de um escândalo que envolvia milhões de correntistas e recursos da previdência seria um risco muito alto para 2028”, diz Amâncio. Com informações de Iara Diniz, da BBC News Brasil em São Paulo

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