(FOLHAPRESS) – Após uma operação cinematográfica de fuga e despiste, o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegou com a mulher e as duas filhas a Miami, nesta quarta-feira (28), e divulgou uma carta golpista em que se apresentou como “verdadeiro presidente do Brasil”, apesar da derrota para Lula (PT) no domingo (25), por uma margem de 4,4 milhões de votos. Poucos minutos depois, ele recuou e optou por “líder do Brasil”, mas manteve uma série de mentiras e distorções sobre o processo eleitoral, com postura semelhante à adotada em 2022 por seu pai, Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado. A carta de Flávio nos Estados Unidos teve ao menos quatro versões: duas publicadas pelo próprio senador em rede social e duas por aliados próximos da família Bolsonaro. Uma delas chegou a trazer um brasão com a palavra “Brazil”, escrita com “z”. A divulgação, associada à ala mais radical do bolsonarismo, foi acompanhada de manifestações de distanciamento de fiadores de Flávio na disputa eleitoral. O senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial, declarou que nem ele nem o partido podem afirmar que houve fraude nas eleições. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que “o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro, pregou respeito ao resultado das urnas, afirmou que a eleição acabou e que é hora de a direita unir esforços. Partidos que apoiaram Flávio no segundo turno contra Lula também reafirmaram apoio ao pleito e ao respeito democrático. Apesar da proximidade com o clã Bolsonaro, das críticas às eleições brasileiras e do aval para que Flávio fique nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump declarou a jornalistas que não pretende se envolver na crise política brasileira. “Não vou comentar sobre isso, mas sei que demos a ele autorização para entrar no país, então veremos”, disse. “Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, com certeza.” Na primeira e na segunda versões divulgadas por seus aliados, Flávio se dirige “ao povo brasileiro e à comunidade internacional” e se apresenta como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Depois, Flávio publicou em sua própria conta em rede social uma versão sem a palavra “eleito”, mas mantendo-se como “verdadeiro presidente”. Em seguida, fez uma edição e republicou o conteúdo, adotando a expressão “líder do Brasil”. “Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula [o ministro do Supremo Cristiano Zanin] permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, afirma o texto. A teoria golpista, sem fundamento ou provas, repete o que dizem bolsonaristas nas redes. Flávio já havia dito, no domingo, que não reconhecia a vitória do rival porque a Justiça Eleitoral aceitou estender em duas horas o horário de votação, algo que seu próprio partido também pediu em algumas localidades. Na segunda-feira, porém, antes da fuga do Brasil, havia modulado o discurso, falando em liderar a oposição. No período da prorrogação da votação, pouco mais de 34 mil votos foram computados e, por fim, o PL desistiu de protocolar uma ação pedindo a nulidade do pleito. Na carta, Flávio também agradeceu o papel dos presidentes aliados Javier Milei (Argentina) e Donald Trump (Estados Unidos) em sua rocambolesca fuga. O argentino teria entrado com “a coragem” e o americano, com a acolhida. Nenhum dos dois reconheceu a vitória de Lula, e Trump chamou a eleição de fraudulenta, embora tenha se distanciado, até aqui, da fuga em si, apenas dizendo que irá conceder visto aos Bolsonaros. O roteiro, que não havia sido encampado pelo próprio partido, é típico do bolsonarismo e do trumpismo. O pai de Flávio dizia ter sido roubado no primeiro turno de 2018 e nunca reconheceu a derrota de 2022. Já o americano nega ter perdido para Joe Biden em 2020. O senador chegou com a família ao Aeroporto Executivo de Miami-Opa Locka às 10h23, no horário de Brasília, após um voo que deixou Porto Iguaçu, na Argentina, com escala em Guayaquil, no Equador. Ele foi recebido com serviço VIP na pista, passando rapidamente pelos procedimentos de imigração e sendo levado com escolta para algum ponto no norte da Flórida, onde se encontraria com o irmão Eduardo, que se refugia desde o ano passado no país de Trump, onde estimulou a campanha tarifária contra o Brasil. O senador fugiu do Brasil sem cumprir a determinação judicial para entregar seus passaportes brasileiros, mas viajou com o documento italiano, após ter obtido a cidadania em 2023. Segundo a Polícia Federal (PF), não é considerado foragido, pois não há pedido de prisão contra ele. A medida, solicitada pela PF por risco de fuga, foi determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes logo após o anúncio da derrota, no domingo, e comunicada no dia seguinte. Aliados do senador dizem que ela é persecutória, mas há divisões quanto ao apoio à fuga. A operação é envolta em mistérios que levam a questionamentos no Brasil e nos três países envolvidos, todos governados por aliados dos Bolsonaros. Apenas o equatoriano Daniel Noboa ficou fora dos agradecimentos de Flávio. A falta de transparência começa com o avião usado no voo, um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, operado pela empresa argentina Baires Fly, envolvida em um escândalo de corrupção que derrubou, em 2025, um político próximo de Milei, aliado tão próximo dos Bolsonaros que estrelou a convenção que lançou Flávio. Segundo o monitor Flightradar24, o aparelho chegou a Porto Iguaçu, na Argentina, na noite de segunda-feira (26), com o nome de Flávio na lista de passageiros de um voo marcado para as 22h14. A tripulação ficou retida e não houve autorização para o plano de rota, segundo autoridades locais. Enquanto isso, no Brasil, havia versões conflitantes sobre o que ocorrera. Aliados de Flávio diziam, sob reserva, que ele já estava a caminho dos Estados Unidos e, em alguns casos, até havia pousado na Flórida. A rota ora era pela Argentina, ora por roteiros fantasiosos que incluíam a Venezuela, supostamente sob domínio de Trump, ou uma operação secreta da CIA. Ao fim, como ensina em suas memórias Tony Mendez, o homem que tirou diplomatas americanos do Irã na Revolução Islâmica de 1979, retratada no filme vencedor do Oscar “Argo”, a solução mais eficaz parece ter sido algo mais simples, mas nem por isso menos espetacular. A Direção Nacional de Migrações da Argentina havia negado, na manhã de terça-feira, ter recebido Flávio e sua família. À noite, o órgão disse que os Bolsonaros haviam ingressado no país às 22h50. O avião deixou Porto Iguaçu às 0h21 de quarta-feira e levou 5h25 para chegar a Guayaquil, contornando o Brasil e evitando, assim, seu espaço aéreo e uma improvável interceptação. Quatro horas depois, já com a notícia no ar, o Gulfstream decolou rumo a Miami. Alguns dos aliados do senador que haviam relatado sua ida aos Estados Unidos sustentavam que ela havia ocorrido na terça-feira, mas o desembarque mostrou que estavam errados ou agiram de má-fé. A divulgação de informações falsas foi encampada principalmente por pessoas próximas a Eduardo, reforçando a suspeita de uma ação para despistar e permitir a conclusão da fuga. Segundo a PF, não é feita checagem de documentos de brasileiros que saem por terra rumo à Argentina, mas o órgão estava mobilizado desde a manhã para rastrear uma eventual passagem de Flávio. Se havia risco de fuga e a imprensa argentina havia dito que o avião esperava o senador, o procedimento na fronteira merecerá escrutínio. Uma TV argentina disse, por sua vez, que Flávio e sua família já estavam em Porto Iguaçu durante a terça-feira, escondidos, o que leva o questionamento diretamente ao órgão de imigração do governo Milei sobre como foi feito o registro dos Bolsonaros. A desinformação tomou ares de guerra na terça-feira. O próprio Flávio havia dito, na véspera, após ser intimado pela PF a entregar os passaportes, que entregaria os documentos e nunca deixaria o Brasil. Seu irmão Eduardo ironizou a suspeita de fuga, dizendo que o empresário Elon Musk havia enviado “um foguete” para buscar o senador. Nos Estados Unidos, o Departamento de Estado foi mais claro, dizendo que concederia visto a Flávio e sua família, e não o asilo político mencionado por aliados bolsonaristas. Um de seus operadores nos Estados Unidos, o jornalista Paulo Figueiredo, reclamou de “notícias falsas”, uma especialidade justamente de seu grupo político. Ele foi o responsável pela divulgação da primeira carta golpista de Flávio, com uma piada pronta embutida: acima do texto, o primeiro brasão da República, no qual o país se chamava Estados Unidos do Brazil, com “z” mesmo. Na versão final, publicada pelo senador no X, voltou a ser República Federativa do Brasil. Jair Bolsonaro reage às desculpas de Carlos: “Negativo!” Carlos Bolsonaro afirmou que pediu desculpas ao pai após a derrota de Flávio na eleição presidencial. O ex-presidente, condenado por tentativa de golpe de Estado, respondeu que ainda havia muito a fazer. O encontro ocorreu em meio à fuga de Flávio para os Estados Unidos e à contestação do resultado eleitoral Notícias ao Minuto | 06:02 – 29/10/2026
