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Da ‘motosserra’ ao custo social: como o modelo econômico de Milei virou tema da eleição brasileira

por Redação
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Após quase três anos, Argentina tem inflação menor e contas mais equilibradas, mas enfrenta fechamento de empresas, perda de poder de compra e desgaste político do presidente. Especialistas avaliam se o modelo, defendido por Flávio e criticado por Lula, caberia no Brasil. Montagem com Flávio Bolsonaro, Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva. — Foto: Reuters Nesse debate, Milei se tornou mais um símbolo da polarização: enquanto Flávio Bolsonaro (PL) vê o argentino como exemplo a ser seguido, Lula (PT) alerta para os custos sociais de medidas tão severas na economia. (saiba mais abaixo) Esse é o mesmo dilema que Milei enfrenta hoje na Argentina: Por um lado, após quase três anos de governo, as medidas de ajuste econômico reduziram a inflação e melhoraram importantes indicadores da economia, como o equilíbrio das contas públicas do país.Por outro, a paciência de muitos argentinos com o “sacrifício necessário” para arrumar a casa começou a se esgotar à medida que os efeitos das medidas atingiram as empresas, o mercado de trabalho, a renda e o consumo das famílias. Agora no g1 Como está a economia argentina? Nas regiões mais pobres, os números ganham rosto: cozinhas comunitárias ficam lotadas, há registros da volta do escambo — troca de produtos sem o uso de dinheiro — e famílias recorrem a empréstimos de curto prazo para colocar comida na mesa. Gustavo Raúl Pérez, dono de uma loja de ferragens em Buenos Aires, exemplifica o aperto no bolso do consumidor e o impacto para pequenos empreendedores. “Eu costumava vender 10 carrinhos de mão. Agora, vendo um.” “Votei em Milei acreditando que ele traria mudanças para melhor, mas ele realmente me decepcionou”, afirmou Pérez à agência Reuters. Gustavo Raul Perez, dono de uma loja de ferragens, toma mate em seu estabelecimento em San Fernando, nos arredores de Buenos Aires, em 16 de setembro de 2026. — Foto: Reuters/Agustin Marcarian Popularidade em queda Em 2026, os impactos da “motosserra” passaram a pesar também sobre o futuro político de Milei. A popularidade do presidente argentino entrou em queda, com desgaste especialmente entre a parcela mais pobre da população. Pesquisa da AtlasIntel de setembro mostrou que a desaprovação do presidente argentino entre os entrevistados de menor renda, que ganham até cerca de US$ 650 por mês, chegou a quase 70%, enquanto a aprovação ficou abaixo de 30%. Um ano antes, Milei era desaprovado por 57% desse grupo e aprovado por 37%. No conjunto da população, a desaprovação chegou a 58%, ante 38,1% de aprovação. As eleições presidenciais na Argentina estão marcadas para outubro de 2027. Federico Servideo, diretor-presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo, aponta avanços econômicos no governo Milei. Ele pondera, porém, que a execução do Plano Motosserra passou a enfrentar limitações no ambiente sociopolítico. “A sustentação do equilíbrio fiscal, viabilizada pela contenção de despesas operacionais, transferências a aposentadorias e redução de subsídios às tarifas públicas, exerceu pressão direta sobre a renda disponível das famílias”, afirma. Como as campanhas exploraram o tema? Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) durante agenda de campanha. — Foto: Montagem/g1 Durante a passagem pela capital argentina, Flávio defendeu a política econômica de Milei e destacou a melhora dos indicadores do país. “Quando o presidente Milei assumiu o cargo, a Argentina estava falida. Inflação acima de 200% ao ano. Mais da metade da população vivendo na pobreza”, disse. “Então, chegou Javier. E cortou a própria carne do Estado com uma motosserra. Reduziu ministérios pela metade. Acabou com privilégios. Equilibrou as contas. E os resultados estão à vista de todos”, acrescentou Flávio, em espanhol. Daniella Marques, coordenadora do núcleo econômico da campanha de Flávio à Presidência, também já elogiou o líder do país vizinho. “Milei é um ótimo exemplo em termos de voltar a ter capacidade de investimento e em redução de burocracia e impostos”, afirmou a economista. A inspiração também surgiu no plano de governo de Flávio, que promete um “tesouraço” no Brasil para “enxugar a máquina, colocar as contas em ordem e reduzir impostos”. O documento, porém, não detalha como os cortes seriam feitos. Do outro lado da disputa, a campanha de Lula, que busca a reeleição, passou a explorar justamente os efeitos sociais das medidas adotadas na Argentina. Uma das peças compartilhadas nas redes sociais do PT cita a pobreza e a reforma trabalhista promovida por Milei, criticada por sindicatos. Aprovada em fevereiro, a medida permite jornadas de até 12 horas, com possibilidade de compensação, e altera as regras de indenização em caso de demissão. “O risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação é muito mais alta”, declarou Durigan. Lula questionou Flávio sobre sua proximidade com Milei e perguntou se ele pretendia adotar no Brasil o modelo econômico argentino. Flávio não respondeu à pergunta, mas disse que governos de direita precisam “consertar” problemas deixados por governos de esquerda. Mas o que está por trás dessa divergência? O embate não é só político. Na economia, também há diferentes visões sobre a melhor receita para colocar um país nos trilhos. A discussão também envolve os limites do ajuste: quanto apertar as contas agora na expectativa de colher resultados melhores no futuro — e a que custo? 🔎 De um lado, há uma visão que prioriza o ajuste das contas públicas e a estabilidade da economia, mesmo com custos no curto prazo. Do outro, uma que dá mais peso aos efeitos imediatos do ajuste sobre a atividade econômica, o emprego e a renda — e ao papel do Estado em reduzir esses impactos. Federico Servideo, da Câmara Argentino-Brasileira, afirma que existe uma correlação direta entre programas de consolidação fiscal profunda e impactos de curto prazo nos indicadores sociais. “A redução do gasto público e a interrupção de obras e repasses discricionários subtraem um componente de demanda que afeta a dinâmica econômica regional”, explica. ⚠️ Em outras palavras, ele explica que a redução de gastos, obras e repasses retira da economia parte dos recursos que antes ajudavam a movimentar a atividade. Mas o caso argentino é complexo e tem outras camadas. Durante anos, o Estado bancou parte dos preços de serviços como energia, água, gás e transporte público, mantendo as tarifas abaixo do custo total. Milei cortou parte desses subsídios, aumentando expressivamente a parcela paga pelos consumidores. Na prática, esse modelo ajudava a aliviar o bolso das famílias, mas também pesava sobre as contas públicas. Em um país que já convivia com déficits fiscais, endividamento e escassez de dólares, os subsídios adicionavam pressão a um quadro econômico já bastante fragilizado. Federico Servideo lembra que, apesar dos impactos sociais, os defensores do ajuste de Milei apontam entre as justificativas técnicas do plano a necessidade de corrigir desequilíbrios acumulados e preços defasados por anos. Por que a conta social chegou depois? A inflação foi o primeiro grande problema que Javier Milei conseguiu atacar. Mas frear a alta não fez os preços caírem, nem devolveu automaticamente poder de compra e empregos aos argentinos. Os preços dispararam no início do choque econômico e continuaram subindo depois, apenas em ritmo bem mais lento. Para quem vive do salário, a diferença é crucial: se a renda não acompanha, inflação menor não significa necessariamente mais dinheiro no bolso. Inflação oficial da Argentina, no acumulado em 12 meses. — Foto: g1 Frear a inflação, portanto, é só parte do caminho. Falta fazer os bons números aparecerem também no bolso dos argentinos. Para Jimena Zuniga, analista de geoeconomia da América Latina da Bloomberg Economics, Milei “foi muito bem na estabilização macroeconômica” e “no crescimento total”, mas o poder de compra segue justamente como uma das principais pendências do governo. “A principal conta pendente de sua gestão é que o crescimento é pequeno demais e desigual demais para produzir, até agora, aumentos maiores da renda real para a maior parte da população”, afirma a especialista, que vive em Buenos Aires. Conforme mostrou o g1, o PIB da Argentina avançou 4,4% em 2025. Mas o crescimento ficou longe de se espalhar pela economia: concentrou-se em setores como energia e mineração, enquanto o consumo interno seguiu fraco. A indústria e o setor público, por exemplo, foram fortemente prejudicados pelo ajuste econômico. Segundo Zuniga, o aumento do desemprego e a queda do emprego formal pressionam a renda e ajudam a explicar por que a pobreza voltou a subir. Incidência de pobreza e de indigência na Argentina — Foto: Arte g1 “A abertura da economia e os custos elevados em dólares fazem com que muitas empresas exportadoras, e sobretudo aquelas que concorrem com produtos importados, tenham de fechar ou demitir funcionários, que agora são muito caros em dólares”, afirma. Segundo a especialista, os setores hoje mais competitivos empregam relativamente pouca gente e, por isso, têm alcance limitado para compensar as perdas no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, demissões e fechamentos de empresas não acontecem de uma hora para outra, o que ajuda a explicar por que os números pioraram agora. “No início, as empresas aguentam por algum tempo operando com prejuízos. Mas a passagem do tempo faz com que cada vez mais delas tomem essa decisão [de fechar as portas]”, acrescenta Zuniga. Tito Nolazco, diretor da Prospectiva Public Affairs Latam na Argentina, chama atenção justamente para essa diferença de ritmo: os setores da economia não reagem ao ajuste na mesma velocidade. “Alguns estão crescendo e apresentando um desempenho muito bom, enquanto outros, que exigem mais mão de obra, como a construção e a indústria, estão sendo fortemente afetados pelo modelo econômico atual”, diz o especialista, que vive em Buenos Aires. Segundo Nolazco, enquanto obras públicas foram interrompidas e parte da indústria sofreu com a abertura econômica, os investimentos em Vaca Muerta — polo de petróleo e gás do país — e na mineração avançam mais lentamente do que os fechamentos de empresas e os cortes de pessoal na indústria. Por que o mercado também perdeu parte do entusiasmo? O S&P Merval, principal índice da bolsa argentina, avançou em 2024 e 2025. Em 2026, porém, acumula queda de 6,6% até outubro. Variação do S&P Merval, principal índice da bolsa argentina. — Foto: g1 Para Tito Nolazco, o esfriamento do ânimo do mercado passa por uma combinação de fatores externos e internos. Lá fora, o ambiente também deixou de ajudar. Conflitos internacionais aumentaram a busca por segurança, enquanto os juros altos nos Estados Unidos deram aos investidores mais motivos para evitar mercados considerados mais arriscados, como o argentino. No país, outras incertezas entraram na conta. Nolazco cita o contexto eleitoral, o aumento do desemprego, as tensões sociais e resultados desfavoráveis ao governo no Congresso como fatores que passaram a gerar dúvidas sobre a sustentabilidade do plano econômico. “A menos de um ano das eleições, com eleições também no Brasil e nos EUA [midterms], dois dos três parceiros comerciais mais importantes da Argentina, é lógico que investidores de longo prazo busquem algum refúgio mais seguro até que o cenário político local fique mais claro.” Jimena Zuniga, da Bloomberg Economics, coloca ainda mais peso no risco político. Para ela, esse é hoje o principal fator por trás dos movimentos do mercado argentino. “Em geral, me parece que a variável que predomina hoje sobre os movimentos do mercado é o risco político”, diz, acrescentando que o peronismo, principal movimento político de oposição a Milei, “não adere a premissas macroeconômicas básicas que, no restante da região, já não são objeto de discussão”. “A possibilidade de que [o peronismo] possa voltar ao poder representa um risco que pesa sobre todos os mercados”, acrescenta. Em outras palavras, ela aponta que uma troca de governo traz mais incerteza sobre os rumos da economia argentina do que em países como o Brasil, onde há maior consenso sobre premissas macroeconômicas básicas. Há espaço para uma ‘motosserra’ no Brasil? Se a “motosserra” virou referência na eleição brasileira, os especialistas ouvidos pelo g1 fazem uma ressalva: Brasil e Argentina partem de situações econômicas, políticas e institucionais diferentes. “Acredito que as circunstâncias em que Milei assumiu foram especiais. O Brasil não precisa nem teria tolerância política para eliminar o déficit fiscal de um dia para o outro, por exemplo”, afirma Zuniga. As análises foram feitas por autoridades e ex-autoridades do setor público, profissionais do mercado financeiro, pesquisadores e professores de diferentes instituições de ensino e pesquisa. Nas respostas, o equilíbrio das contas públicas apareceu, de longe, como o mais importante. O problema começa no resultado primário (diferença entre receitas e despesas do governo) e acaba se refletindo no crescimento da dívida pública. 🔎 O indicador está em trajetória de alta e já equivale a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país. Em outras palavras, a dívida equivale a cerca de 10 meses de tudo o que a economia brasileira produz. Evolução da dívida bruta — Foto: Arte/g1 Entre economistas, porém, há uma leitura de que o Brasil precisa ajustar as contas, mas não de um choque nas proporções do argentino. O caminho apontado passa por um ajuste mais gradual e previsível, com reformas capazes de controlar o avanço da dívida sem provocar uma ruptura brusca na atividade e na renda. Federico Servideo, da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo, destaca que o Brasil tem reservas internacionais consolidadas, baixa dolarização, um mercado financeiro doméstico mais profundo e uma economia mais diversificada do que a Argentina. Essas características, diz ele, dão ao Brasil maior capacidade de absorver choques externos. “Além disso, o Brasil possui um sistema de freios e contrapesos institucionais e federativos que favorece a previsibilidade e mitiga inflexões bruscas na política econômica”, afirma. Tito Nolazco, diretor da Prospectiva, afirma que a comparação entre países “é sempre enganosa”. “Existe uma tendência global de alinhamentos internacionais, dos dois lados, e as associações entre eles sempre acabam sendo falsas.” “Cada pessoa, mas também cada sociedade e cada sistema institucional, tem suas particularidades”, declara. Ele acrescenta que uma “motosserra” daquele tamanho não depende apenas das condições econômicas ou institucionais, mas também de uma sociedade disposta a bancar o custo do ajuste. “Era essa a situação da população argentina em 2023, diante da espiral inflacionária em que o país se encontrava”, diz. “Não acredito que a sociedade brasileira esteja nessa mesma situação de apoio e tolerância ao ajuste”, conclui. Ops!

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